[ONLINE] Universidade de Aveiro, Portugal

21, 22 e 23 de outubro de 2020

A matriz interseccional das opressões de pessoas trans no Brasil e em Portugal

Liliana Rodrigues
Nuno Santos Carneiro
Conceição Nogueira

A história das abordagens (bio)psicomédicas sobre as transexualidades não é recente. Desde a década de 1950, tem sido caracterizada por tentativas várias de classificação das pessoas cujas identidades não correspondem ao sexo atribuído à nascença (i.e. pessoas trans). A par destes processos de categorização, as instituições e os discursos sociais, políticos e científicos têm contribuído para a discriminação e violência contra as pessoas trans.

Sustentada por uma perspetiva psicológica, feminista, crítica e interseccional, esta comunicação visa problematizar a matriz interseccional das opressões na (des)construção das identidades das pessoas trans.

Esta comunicação é parte de um estudo sobre a (des)construção das identidades das pessoas trans. Foram realizadas 35 entrevistas semiestruturadas a pessoas autoidentificadas como trans, transexuais e travestis, no Brasil e em Portugal. Os discursos dos/as participantes deste estudo foram sistematizados segundo a análise temática (Braun & Clarke, 2006), a partir da qual emergiram sete temas principais, a saber: os processos de subjetivação identitária, as perceções sobre a(s) transexualidade(s), os direitos e o (não-)reconhecimento do “humano”, a matriz interseccional das opressões, as intervenções (bio)psicomédicas, a (des)patologização das transexualidades e a auto- perceção de apoio e a (não-)aceitação após o coming out. Nesta comunicação, centramos a nossa discussão no tema “matriz interseccional das opressões”.

Entre as principais conclusões deste tema, destaca-se: o lugar do não-branco e “pobre”, a classe social como privilégio, o lugar do género, o privilégio da heteronormatividade, o privilégio da cisnormatividade, o ativismo como privilégio e a localização geográfica como privilégio. Graças a estas conclusões, foi possível identificar a matriz das opressões. Assim, a algumas pessoas trans que pertencem a classes sociais mais desfavorecidas não lhes é garantido o reconhecimento de direitos, o que as torna mais vulneráveis a situações de transfobia em determinados contextos, nomeadamente no contexto da saúde e da educação. O estudo permitiu igualmente concluir que a pertença ao género feminino ou masculino ou a recusa do binarismo de género têm um impacto diferenciado nas experiências de discriminação de uma pessoa em concreto. Além disso, para algumas pessoas, o facto de serem trans e vivenciarem orientações sexuais não normativas acrescenta vulnerabilidade às suas experiências.

A questão do estigma também depende do quanto as pessoas trans podem reproduzir a cisnormatividade, isto é, a ideia de que os corpos cis são mais valorizados, legítimos e aceites do que os corpos trans. Por outro lado, o ativismo cria um contexto de proteção ou privilégio para as pessoas que acedem a ele, através da partilha e do reconhecimento pelos “iguais”, tornando-se numa forma de acrescentar recursos (e re/conhecimentos) às

suas vidas pessoais e coletivas. Concluiu-se igualmente que as pessoas que vivem em grandes centros urbanos têm acesso a mais informação e a cuidados de saúde mais específicos. Além disso, esses espaços são aqueles onde as pessoas trans são tendencialmente menos discriminadas.

Baseada num compromisso com a transformação social, esta comunicação contribui para o aprofundamento da reflexão crítica acerca das vivências das pessoas trans em relação à sua matriz interseccional das opressões e acerca dos processos de exclusão aos quais estas pessoas estão sujeitas. Simultaneamente, problematiza as principais necessidades e especificidades deste grupo social, a fim de contribuir para a implementação de políticas públicas e para o desenvolvimento de posicionamentos psicológicos promotores da diversidade de género e da justiça social.

Palavras-chave: género; direitos humanos; feminismo trans; interseccionalidade; (des)patologização.