[ONLINE] Universidade de Aveiro, Portugal

21, 22 e 23 de outubro de 2020

Projeto-Projétil Inúmeras – Cyborgas: corpas trans que sobrevivem ao Fim do Mundo

Levi Muniz

Inúmeras é um projeto/projétil de pesquisa que visa, por meio da pintura digital, apresentar uma parte da multiplicidade das vivências trans brasileiras, em contraponto às imagens midiáticas de morte e violência associadas a essas pessoas. Para isso, a autora, que é travesti, realiza uma série de pinturas digitais a partir de fotos de pessoas trans vivas, em pleno estado de invenção de mundo, e compartilha essas imagens de maneira virtual e com intervenções urbanas. Esse trabalho aqui inscrito se debruça a respeito das noções de violência, Fim de Mundo, pós-humanidade e transgeneridade evocadas pela segunda parte do projeto, intitulado Cyborgas. Em Cyborgas, desdobramento-continuidade do projétil inicial, a intenção é retratar trinta pessoas trans de Fortaleza/CE (BR) em diversos cenários apocalíptico, criados mediante as indicações dessas pessoas sobre como se imaginam no fim do mundo. A partir das pinturas, nessa versão assomadas a técnicas de photobashing (manipulação digital de fotografias pré-existentes), pretende-se levantar discussões sobre violência, gênero, existência e imagem, compartilhando as obras em diversos formatos: por meio de cyberativismo em redes sociais; exposições em centros culturais, escolas e eventos; lambe-lambes por espaços da cidade, entre outros. Cada imagem consta com uma visualidade singular, construída em uma pesquisa em cima das fotos da pessoa, das conexões dessa pessoa com a comunidade trans e na resposta das perguntas: “Como você sente/se relaciona com sua própria transgeneridade?” e “Como você se imagina, enquanto pessoa trans, no fim do mundo?”. Então, a artista experimenta photobashing e pintura digital no processo de criação. Para além das pinturas, uma série de instigações construídas por design digital impulsionam as discussões levantadas pela intersecção transgeneridade-fim do mundo. As imagens de design servem como proposições cyberativistas de engajamento e composição imagética nas exposições e intervenções urbanas do projeto-projétil. Carrega o nome de projeto-projétil de pesquisa por entendermos a afirmação da presença e multiplicidade trans como uma arma contra a cisheteronorma. Em tempos de beligerância, precisamos nos munir da invenção, da união e da presença para firmarmos um espaço em que nós possamos existir. Pensar em um fim do mundo não é tarefa difícil para uma pessoa trans brasileira. Entendendo o Brasil, seguidamente, como o país que mais mata pessoas trans no mundo (ANTRA, 2017; 2018; 2019). Percebendo que a morte não é o único dispositivo (AGAMBEN, 2000) necropolítico (MBEMBE, 2016) de centralizar a violência em nossos corpos (MOMBAÇA, 2016). Identificando ferramentas de invisibilização, exclusão social e afetiva, afastamento do mercado de trabalho, percalços na trajetória escolar e familiar (BENTO, 2011). Notando que a vivência trans é uma trajetória precarizada, vulnerabilizada e subalternizada (MOMBAÇA, 2016), inclusive por um mídia que, continuamente, cria uma imagem da transgeneridade associada constantemente á morte e violência (MARTINS, 2016) percebemos, então, que, ao falar de fim de mundo, precisamos apontar um apocalipse já vigente (KRENAK, 2019). Akuenda Translebixa, militante trans e preta, em sua fala durante o IV Desfazendo Gênero, aponta a humanidade enquanto um projeto de extermínio dos corpos não-humanos. A vivência trans é identificada, pela violência, como uma trajetória indigna de tornar-se sujeito, inválida de afirmar-se humana. Vivência monstruosa, a ser aniquilada (COHEN, 2000). Pensamos, assim, em um projeto de continuidade de existência: de afirmação de possibilidade e continuação de nossas vidas em um Fim do Mundo que já nos atinge. Pintura digital como criação futurista e ficcional de nosso existir e sobreviver. Marcar na cidade como forma de criar lastros e marcar ruínas. Cyberativismo como mecanismo de alastramento de corpo. Invenção como movência de mundo e de si (KASTRUP, 1997). Criar, disseminar, continuar existindo, sendo Inúmeras, sendo Cyborgas.

Palavras-chave: Pintura digital; Arte travesti-transgênera; Artivismo e dissidência; Existência trans e fim do Mundo; Invenção e criação trans.