[ONLINE] Universidade de Aveiro, Portugal

21, 22 e 23 de outubro de 2020

Josita Hernán e a performance da mascara da feminidade no período franquista

Samantha da Silva Diefenthaeler

A presente comunicação tem como objetivo principal realizar uma análise sobre a representação da manifestação do desejo durante a carreira da atriz Josita Hernán no período franquista Espanhol. Josita Hernán, sem dúvidas, foi uma atriz importante que diferiu do padrão de mulher imposto pela ditadura. A ideologia do período terminou impondo um conceito único e ideal sobre o feminino: não era possível desejar, as mulheres deveriam ser maternais, proteger a casa, a virgindade e o matrimônio. Resulta impressionante constatar como as interpretações de Hernán conseguiram imprimir novos gestos associados ao feminino diferindo de um padrão ditatorial. Curiosamente durante toda sua carreira interpretou personagens ingênuos que baixo uma máscara manifestavam seus desejos próprios e controlavam as situações narrativas. A partir da uma gestualidade fora do comum a atriz conseguiu superar as censuras impostas a categoria mulher vigentes durante a ditadura franquista. 

Para tanto, a partir dessa proposta aproximamos a carreira profissional de Hernán com o conceito de máscara feminina, proposto por Joan Rivière. Em 1929, a autora destacou em seus estudos como as mulheres que desviavam de um certo padrão deveriam disfarçar suas vontades baixo a máscara de falsa ingênua. A partir daí, não é surpreendente constatar como a atriz em questão conseguiu interpretar no cinema personajes que em grande maioria eram “falsas idiotas” que no fundo manipulam seus entornos para conquistar seus desejos. Essa classe de performance de gênero também está fortemente conectada com a trajetória pessoal da atriz. Uma vez constatado que, segundo Riviere, o feminino é a manifestação de uma máscara pautada pelos códigos normativos sociais realizamos um salto a teoria da performatividade de Judith Butler. Assim, também podemos comprovar, a partir de uma análise dos personagens de Hernán, que as atuações de uma máscara imposta ao feminino não deixam de ser uma classe de performance de gênero. Butler chegou a afirmar que uma postura paródica é fundamental para transcender certas definições normativas, sem cair em uma simples reiteração de estereótipos dominantes. Por lo tanto, planteamos como hipótese central a ser apresentada que ao questionar a máscara, ou o disfarce, podemos chegar a perceber como essas teorias estavam profundamente relacionados com a carreira artística da atriz em questão. Comprovando como os personagens de Hernán, por meio de uma exageração paródica ou uma ocultação forçada, conseguiram legitimar novas saídas a uma ideia de feminino que estava legitimada a desejar mesmo durante as imposições de uma ditadura.

Palavras-chave: desejo; mascara; performance; Josita Hernán; franquismo; ditatura