[ONLINE] Universidade de Aveiro, Portugal

21, 22 e 23 de outubro de 2020

Performatividades de Gênero no Contexto Escolar: o Currículo em Diálogo com as Experiências Discentes com Lazer

Marie Luce Tavares
Hélder Ferreira Isayama

Estudar as juventudes, suas culturas e dilemas no contexto escolar é questionar aspectos ligados a esse grupo que, mesmo quando não são negligenciados pelo currículo, acabam em conflito com a cultura escolar de um modo mais geral. Destacamos ainda que a escola é tida pelas/os jovens como um espaço importante para a sua formação, proteção e socialização; mas que, por outro lado, também é apontada como lugar de insatisfação e de exclusão. Neste contexto, o currículo escolar se destaca como artefato importante na produção de subjetividades, pois as/os jovens vivenciam os currículos escolares em boa parte de seu tempo, e esses currículos ensinam, entre outras coisas, modos de ser e de viver no mundo. O currículo escolar, na contemporaneidade, é atravessado por discursos que circulam em outros artefatos culturais. Neste sentido, nos perguntamos: quais as experiências com/no lazer no contexto escolar? De que forma essas experiências com/no lazer dialogam com os currículos escolares? A partir de contribuições foucaultianas, compreendemos que a experiência se organiza não a partir de um princípio de identidade, onde se pressupõe uma unidade, uma unicidade, mas, antes, a partir de um princípio de transformação, um modo de ação no qual o sujeito se concebe no devir, sendo, em si mesmo, o nó de múltiplas relações. A experiência, portanto, pode ser tratada a partir dessa definição: ela é algo que transforma o sujeito. É precisamente a concepção de experiência como uma espécie de metamorfose, como uma transformação na relação com as coisas, com os outros, consigo mesmo e com a verdade. Diante deste contexto, o presente trabalho apresenta um recorte da pesquisa de doutorado que analisou os diálogos entre a experiência com lazer das/os jovens-estudantes no Ensino Médio Integrado do Instituto Federal de Educação de Minas Gerais – Campus Ouro Branco e o currículo desta instituição. Sendo assim, objetiva analisar as apropriações identitárias performatizadas nos espaços de lazer da escola. Para tanto, buscamos analisar os discursos das/os jovens-estudantes participantes dos coletivos juvenis organizados na instituição a partir da realização de rodas de conversa temáticas. Para tal problematização, procuramos aporte teórico nos Estudos Culturais e nas teorias pós-críticas de currículo. Essas teorizações corroboram na compreensão do currículo escolar como máquina de ensinar que se articula e disputa espaço na produção de significados e de verdades nas dimensões culturais a serem divulgadas e preservadas e na formação de pessoas. Nesta perspectiva, o currículo é um discurso produzido por relações de saber-poder, que tem efeitos produtivos sobre aquilo que fala. As narrativas discentes e as práticas, os procedimentos, as técnicas e os exercícios do currículo se cruzam, se atravessam mutuamente. Esse atravessamento, com as montagens que proporciona, as disputas que estabelece assim como os sentidos que engendra, interessaram diretamente a este estudo. Considerando o contexto da instituição estudada, uma escola de educação profissional e tecnológica, nos deparamos com quatro coletivos juvenis ridificados, com características diferenciadas, que foram e estão sendo consolidados como espaços de construção identitária dessas/desses jovens-estudantes no espaço escolar. Ademais, identificamos que os coletivos ressignificam os espaços da escola para suas experiências de lazer e performances identitárias. Apesar das especificidades de cada coletivo, são as relações de gênero e sexualidade que os atravessam mutuamente, destacando, inclusive, as tensões entre os coletivos, e configurando o lazer dessas/desses jovens-estudantes como lugar de resistência. O diálogo com esses coletivos juvenis contribuíram com as reflexões sobre a (re)produção dos estigmas sociais no espaço escolar e no contexto do lazer, e sobre a urgência de se (re)pensar currículos frente ao planejamento de estratégias de resistência nos cotidianos escolares na tentativa de desmistificar a naturalização e normatização da suposta superioridade e supremacia das heteronormas.

Palavras-chave: Currículo; Lazer; Escola; Gênero; Juventudes.